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A contribuição da Psicologia na prevenção de cânceres da população masculina

No mês de novembro a campanha intitulada “Novembro Azul” refere-se à prevenção de cânceres comuns ao masculino, envolvendo câncer de próstata, câncer de testículo e câncer no pênis. Conforme o Instituto Nacional do Câncer – INCA, o câncer de testículo atinge 5% do total dos cânceres da população masculina. Os riscos são aumentados por conta da existência de histórico deste tumor na família, lesões e traumas na bolsa escrotal, não descida de um ou dos dois testículos para a bolsa escrotal no início da vida e outra situação de risco são os trabalhadores expostos a agrotóxicos. O câncer de pênis atinge aproximadamente 2% de todos os tipos de câncer relativamente à população masculina e as pesquisas apontam uma forte relação entre a infecção pelo papilomavírus humano – HPV e esse tipo de câncer. Importante comentar que a má higiene íntima está relacionada ao câncer de pênis.

Conforme o INCA, o câncer de próstata é considerado um câncer da terceira idade, tendo em vista que mais de 75% dos casos detectados no mundo se referem ao surgimento após 65 anos de idade. Do total de cânceres que atingem o público masculino brasileiro 31,7% corresponde ao câncer de próstata e o crescimento nas estatísticas se deve a uma associação com o aumento da expectativa de vida do brasileiro. Em 2019, o IBGE estima que a expectativa de vida do homem é de 73 anos.

O INCA também aponta para o aumento dos riscos do câncer de próstata. Dentre os riscos mais importantes refere-se à incidência deste tipo de câncer em pai ou irmão, antes da idade de 50 anos. Outro fator de risco, refere-se ao excesso de gordura corporal e um terceiro se refere à exposição a produtos químicos, tais como, aminas aromáticas, arsênio, produtos de petróleo, motor de escape de veículo, hidrocarbonetos policíclicos aromáticos, fuligem e dioxinas. Uma curiosidade acerca do câncer de próstata é que ele cresce tão lentamente que muitas vezes não chega a dar sinais e nem ameaça a saúde. Para que se tenha uma noção do que isso significa, para chegar a 1 cm³ demora cerca de 15 anos. Quanto aos exames para prevenir primariamente a sua existência recomenda-se verificar a dosagem de PSA – antígeno prostático específico que detecta o câncer de próstata. Outro exame que encontra grande resistência por conta do desconforto é o toque retal, em que se verifica o endurecimento do tecido ou existência de nódulos, caracterizando o estágio inicial da doença. Em virtude desse exame é que se verifica um maior empenho da saúde pública, com o objetivo de superar esse preconceito.

A campanha “Novembro Azul”, que teve seu início no Brasil em 2011, se constitui numa providência de prevenção com o propósito de alertar sobre a necessidade dos exames para detectar precocemente o câncer de próstata e, também, despertar sobre as condições para redução de riscos em contrair a doença. As políticas públicas destinadas a atender a população masculina são recentes no Brasil. Em 2009 surgiu a Política Nacional de Atenção Integral da Saúde do Homem – PNAISH, desenvolvida a partir de uma parceria do SUS com pesquisadores e agências internacionais, cujo propósito é promover ações de saúde para esse público.

Justamente por conta dessa abordagem recente, desperta a atenção da necessidade de trabalhos que tenham o propósito de auxiliar a população masculina a cuidar de si, tanto no sentido de diminuir a exposição a riscos de contrair o câncer, quanto num aumento da frequência nos exames para detecção precoce da doença, ampliando as condições de atuação médica.

Dentre as possibilidades de abordar esse assunto, nos parece importante compreender os aspectos psicológicos envolvidos nos cuidados para a prevenção do câncer de próstata, testículos e pênis. Desse modo os comentários que serão realizados terão por base pesquisas e obras publicadas sobre o assunto de maneira a oferecer uma contribuição a partir dos aspectos científicos da área da psicologia.

CONTRIBUIÇÕES DA PSICOLOGIA PARA A PREVENÇÃO DO CÂNCER DE PRÓSTATA

Considere-se inicialmente que a exposição aos riscos pode ser significativamente reduzida desde que se amplie as condições para a população masculina cuidar de si. Esse objetivo se apresenta como uma possibilidade interessante de se abordar o assunto. Então, vamos buscar  compreender o que envolve o masculino.

Pesquisas sobre a questão da masculinidade na nossa sociedade apontam sobre as exigências de padrões sociais que internalizados desde a infância, promovem no homem a busca por exercer o cumprimento de papéis de provedor, protetor e sexualmente potente. Um ideal de exigências em que se evita o que pode abalar o cumprimento dos papéis sociais exigidos do masculino, dentre esses ideais temos que considerar que as pesquisas relatam um contingente de homens que deixa de buscar os serviços preventivos de saúde, presumindo que nada lhes vai acontecer.

Alguns dados obtidos junto a outras pesquisas revelaram algo mais grave ainda. Isso porque constatou-se que os homens postergam o máximo possível a busca pelos serviços de saúde, em relação a doenças em geral, para um momento em que os sintomas se tornam insuportáveis. Quanto mais afastada dos grandes centros urbanos essa realidade se faz mais presente. Isso geralmente tem graves implicações em termos de saúde, principalmente por conta de doenças curáveis em seu início assumirem um caráter de tratamento com maior severidade, muitas vezes se configurando como incuráveis. Isso explica a frase que integra a sabedoria popular: “homem só vai ao médico, quando está quase morrendo”. Um fato para muitos homens. E morrem mesmo!

Assim, a construção social da masculinidade refere-se à ideia de uma invulnerabilidade no imaginário masculino, contribuindo para uma maior exposição a riscos e ampliando as condições de vulnerabilidade ao adoecimento e morte. Como se não bastasse isso, outra questão importante refere-se à interdição social concernente à exposição de nádegas e ânus, marcada por um conjunto de simbolismos, que torna o toque retal – importante para avaliação de nódulos na próstata – uma violação da masculinidade.

Uma reflexão que queremos deixar aqui consignada, que localizamos em algumas pesquisas, refere-se à mudança de papéis. Como dissemos o câncer  de próstata se insere dentre as doenças muitas vezes detectadas tardiamente, então o homem, antes provedor, com a doença passa a assumir um papel de dependente, algo impensável antes do diagnóstico. Quando o tratamento se estende, em razão da gravidade de um quadro de tratamento mais intenso, esse ideal de provedor, diante da postura de negação e revolta, muitas vezes pode ampliar a tristeza e levar a um quadro de depressão. Isso ocorre quando perde esse papel que julga ser o que unicamente lhe cabe.

Nesse trabalho, estamos trazendo a idéia de que os exames de prevenção para o câncer são essenciais, entretanto, um dos elementos importantes que devem compor um conjunto de cuidados de si mesmo é buscar saber dos riscos em que se incorre para se compreender que a prevenção não se opõe à masculinidade. Reconhecer que ser homem não é ser invulnerável e que o teatro das aparências só produz efeito para o público que o assiste e admira. Cuidar de si é reconhecer que a vulnerabilidade faz parte da constituição humana e que o cuidado da família  tem a ver com essas considerações sobre si mesmo.

Conhecer a si mesmo e as influências do campo emocional nas decisões exige os cuidados da psicoterapia. Esse percurso é longo, dispende muita energia, mas permite compreender a si mesmo, ressignificar as experiências emocionais mantidas à distância em razão de um ideal de masculinidade, que filtra as experiências no mundo, e que impossibilita compreender melhor a família com a qual convive e compartilha o caminho.

Dr. João Palma Filho
Psicólogo
CRP 146.528

2019-11-05T01:11:15+00:00
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