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CÂNCER DE MAMA

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Cuidar de si mesmo: as contribuições da psicologia para prevenção do câncer de mama

Durante este mês a campanha denominada “Outubro Rosa” tem o propósito de alertar sobre a necessidade de prevenção do câncer de mama. Tendo em vista que a campanha se refere essencialmente ao corpo feminino, se torna oportuno mencionar a existência de outros tipos de câncer que não abordaremos nesta oportunidade. Dentre eles, o de ovário, corpo de útero e de colo de útero, este último provocado a partir do Papilomavírus Humano – HPV (tipo oncogênico).

Essa campanha tem um especial significado, principalmente por conta de as informações favorecerem a detecção de câncer no início, resultando em tratamento adequado, com melhores condições de cura e, em termos de saúde pública, esse tipo de campanha recebe a categorização de prevenção primária. São medidas gerais propostas à população tendo em vista prevenir sobre fatores que podem levar à doença, bem como disponibilizar a realização de exames em pessoas que não têm diagnóstico de câncer. Isso se constitui num avanço no campo da saúde pública. Na apresentação desse trabalho nossos comentários serão norteados pelas questões psicológicas que favorecem o desenvolvimento da doença, bem como a possibilidade de adoção de medidas para prevenção. Nossa fundamentação está alicerçada em pesquisas da área da psicologia, sendo necessário reconhecer que cada pessoa irá buscar os recursos terapêuticos que a fará se sentir melhor.

Alguns registros sobre o câncer

A palavra câncer tem origem na antiguidade grega. Hipócrates denominou a doença de “karkinos” por volta de 400 A.C. A forma de caranguejo, com suas pinças, que crescia e, em alguns casos, fazia a pessoa definhar, já era descrita naqueles tempos remotos. Verificava-se a existência de malignidade, considerando-se três graus e no terceiro grau manifestava-se o carcinoma, apresentando-se como uma categoria que se considera até os dias atuais, pela condição incurável. Lá pelo século II D.C., outro autor importante para a medicina foi Cláudio Galeno, um estudioso de Hipócrates que viveu em Roma e associou a melancolia das mulheres ao câncer de mama,  uma relação entre o temperamento e o físico. Portanto, na antiguidade os estudiosos buscavam compreender o câncer dentro de suas limitações técnicas, sobretudo realizando uma descrição pormenorizada dos fenômenos.

As pesquisas na área da oncologia detêm atualmente um imenso conhecimento sobre o câncer. Dentre as inúmeras fontes para se obter dados atualizados sobre o câncer de mama, parece-nos adequado considerar os dados Instituto Nacional do Câncer  – INCA. Conforme esse instituto, há vários tipos de câncer de mama que podem evoluir de diversas formas, alguns mais rapidamente do que outros, a depender das características de cada câncer. O câncer de mama corresponde a 29% dos novos casos detectados a cada ano. No caso dos homens, o câncer de mama acomete 1% do total de casos da doença. Quanto ao tratamento, o Ministério da Saúde presta atendimento por meio do Sistema Único de Saúde (SUS), sendo as campanhas de prevenção essenciais para alertar sobre a necessidade de cuidar de si. Assim, conforme o INCA estão  presentes os fatores ambientais e comportamentais, da história reprodutiva e hormonal, bem como os genéticos e hereditários.

O modo de viver e o câncer

Inicialmente vamos trazer um pouco da contribuição da perspectiva psicanalítica. Esse campo de estudo da personalidade compreende o quanto o inconsciente determina como pensamos e agimos. A maneira como nos constituímos interiormente leva a um determinismo psíquico, cujas escolhas envolvem muitas das condições mapeadas como sintomas de câncer, consoante mencionamos anteriormente. Assim, a personalidade vai se manifestar no estilo de vida, nos comportamentos, nas relações interpessoais que se estabelece, nas opções de alimentos e nas ingestões de bebidas alcoólicas, no hábito de fumar, muitas vezes reconhecendo e optando por escolhas que são nefastas para a saúde. A personalidade vai se manifestar nos relacionamentos íntimos com parceiros sem a prevenção necessária.  Na perspectiva psicanalítica, as escolhas têm uma causa e frequentemente tem a ver com o desejo de ser amado. Assim, ainda que haja o determinismo psíquico, o tratamento psicanalítico favorece o surgimento de possibilidades de ressignificação, podendo apoiar as mudanças, por compreender que há possibilidades de escolha.

Pensar em termos de prevenção do câncer de mama significa pensar na complexidade que envolve os cuidados apontados como frequentes pelo INCA e, também, refletir em termos de mudanças na maneira de viver, fazer escolhas e estabelecer as relações. Além disso, deve-se considerar os aspectos psicológicos associados ao ambiente. Por exemplo, a mulher e a experiência do câncer de mama na família. Nesses casos, a maneira como desenvolveu o processo de cura, ou conforme o sofrimento com o avançar da doença, pode-se encontrar dificuldades para abordar o assunto, entretanto, a ocorrência em família, leva as mulheres daquele grupo a realizar exames preventivos com maior frequência, gerando sempre um estresse a cada avaliação.  Então, se verifica um percurso ansioso e doloroso a trilhar, marcado pelas mudanças na rotina, registradas nos ambulatórios, laboratórios e hospitais e a atenção se volta para o câncer, permanecendo o corpo como um meio suscetível em que a doença pode se manifestar.

Aqui parece-me relevante lembrar das contribuições da psicoterapia, que trabalha com o campo emocional para compreensão das inúmeras experiências de vida da pessoa. Isso porque cada pessoa é singular e interpreta suas experiências de maneira muito particular, apesar de ocorrerem algumas interpretações que se assemelham com as das outras pessoas.

A razão consegue lidar com os objetos de seu alcance. Entretanto, o campo emocional está sempre presente em nossas decisões, ainda que se negue a sua presença, ou se busque isolar a sua importância.

Nesse sentido, a psicoterapia envolve a personalidade e as mudanças possíveis, com um percurso em que a pessoa vai encontrar a si mesma; entretanto, irá verificar que o campo emocional possui maiores exigências do que inicialmente pensa. Como disse o poeta Mario Quintana: “cada um pensa como pode”. Nesse sentido, o processo para compreender a si mesmo é longo, exige um intenso trabalho no mundo interno de cada um, todavia, propicia condições para cuidar melhor de si mesmo. Então cuidar de si assume um caráter mais amplo e profundo de maneira a se ver implicado nas escolhas que faz.

Dr. João Palma Filho
Psicólogo
CRP 146.528

2019-10-03T01:11:46+00:00
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